Um texto que escrevi para a disciplina de Teoria e Estética da Arquitetura.
O memorial é uma impressionante construção estrategicamente localizada entre o Portão de Brandemburgo e a Potsdamer Platz, no bairro de Mitte, centro da capital alemã. São 2711 colunas de concreto cinza escuro firmadas em 19 mil metros quadrados – um quateirão inteiro – erguidas com ângulos variados e alturas diferentes (as mais baixas, com menos de um metro, e as mais altas, com 4,7 metros), gerando uma ondulação que causa um poderoso impacto visual, sublinhado pela estreita espessura entre as colunas: os 95 centímetros entre elas oferecem um caminho livre para o visitante, mas a medida é quase insuficiente para dar passagem a duas pessoas ao mesmo tempo. No subsolo uma exposição multimídia sobre os judeus assassinados na Europa.
O memorial é uma impressionante construção estrategicamente localizada entre o Portão de Brandemburgo e a Potsdamer Platz, no bairro de Mitte, centro da capital alemã. São 2711 colunas de concreto cinza escuro firmadas em 19 mil metros quadrados – um quateirão inteiro – erguidas com ângulos variados e alturas diferentes (as mais baixas, com menos de um metro, e as mais altas, com 4,7 metros), gerando uma ondulação que causa um poderoso impacto visual, sublinhado pela estreita espessura entre as colunas: os 95 centímetros entre elas oferecem um caminho livre para o visitante, mas a medida é quase insuficiente para dar passagem a duas pessoas ao mesmo tempo. No subsolo uma exposição multimídia sobre os judeus assassinados na Europa.
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| Memorial do Holocausto |
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| Subsolo, exposição multimídia. |
O monumento cumpre dignamente a sua função: lembra os seis milhões de judeus mortos, sem colocar em primeiro plano a barbaridade disso.
Para Peter Eisenmann, simplicidade é o que a o monumento provoca. Para muitos, as 2711 colunas servem como metáfora do horror. Eisenmann não usou nenhum simbolismo nesta obra.
Construção de um não-lugar
O resultado é um lugar construído, quase um não-lugar, uma lembrança dedicada aos judeus assassinados e não um registro das barbaridades em si.
Personificação do horror
No subterrâneo, ao qual se chega através de uma escada que se encontra quase de repente, localiza-se o Centro de Informações. Nenhuma placa, nenhuma indicação. Na entrada estão seis rostos com nomes e origem, personificando de forma direta a morte dos seis milhões de judeus. As cores predominantes são preto, branco e cinza em quatro espaços quadrados.
Dimensões da memória
Para o visitante que circula entre as colunas e depois desce "aos porões", a existência do Memorial provoca "uma pequena viagem: do nós até o eu." Visto de fora, o Memorial é dominado pela massa pura, por suas dimensões, pela amplitude do campo de colunas em cinza escuro. Neste momento, a percepção tende a ser coletiva, abstrata, geral – não importa se gostando ou não da arquitetura de Eisenman - e dentro, o indivíduo entra em contato com as lembranças individuais.
O filósofo italiano Giorgio Agamben, em texto publicado sobre o Memorial no semanário Die Zeit, vê o mérito da obra de Eisenman exatamente "no limiar entre as duas dimensões topográficas: uma sobre o solo, exposta, mas na qual nada se lê. E outra subterrânea, onde se tem acesso à leitura".
Eisenman considera o solo a autêntica idéia arquitetônica, o recurso que singulariza a arquitetura. O terreno que serve de suporte para a construção é o que diferencia a arquitetura das outras artes e da mídia. Para ele, o solo não se reduz a uma mera superfície, sendo muito mais locus que encerra a memória coletiva em camadas. Só através de um trabalho consciente com o solo o arquiteto pode atingir a totalidade midiática, ressalta o arquiteto.
Esta topografia provoca sensações positivas e negativas. Uma delas é que, apesar de ser ao ar livre, o memorial é um ambiente um pouco claustrofóbico, pelo tamanho dos blocos que chegam a ter mais de 4 metros de altura. Assim, só é possível ver o concreto e o céu, se olhar para cima.
A meta de Eisenman é colocar o visitante na posição de desorientação das vítimas do holocausto. Com isso, a arquitetura estaria proporcionando às pessoas uma nova experiência espacial, sem recorrer a imagens. Ao mesmo tempo em que é algo belo, pode causar estranheza e até mesmo você pode se perder nele, sentir que está sozinho. Essa sensação forte, mas abstrata, foi proposital, Eisenman, que vem de família judia, buscou algo que não fosse um símbolo reconhecível, sem significados a transmitir.
Andar pelo Memorial é uma experiência impressionante. Os espaços entre os blocos de concreto têm a largura suficiente para passar apenas uma pessoa, tornando o percurso necessariamente solitário. Com a variação da altura dos blocos e a ondulação do terreno, à medida que se caminha parece que se está mergulhando e se perdendo em um labirinto cinzento. Sem ninguém ao seu lado e cercado de paredes estreitas, a sensação é de perda de direção, confinamento e solidão.
Ao sair, percebi que a intenção do Memorial foi atingida de uma forma bastante sutil. Senti por um breve instante um pouco da dor que passou um ser humano igual a nós. Com simplicidade, eficiência e sem ser agressivo, o Memorial é bastante tocante e nos leva a refletir sobre essa mancha feia no passado.
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| O monumento ocupa toda a quadra. |
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A topografia determina o movimento.
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A sensação de claustrofobia para quem circula pelo monumento, causada pela altura e afastamento dos blocos.
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